Em nosso último artigo, sobre o Desperdício no Varejo, falamos sobre os tipos de
perdas no varejo e quantificamos cada um em números da ABRAS, a Associação
Brasileira de Prevenção de Perdas.
De todos os fatores que geram as perdas, a Validade Vencida
é a de maior impacto, representando 38,4% das perdas identificadas, e acontece
quando o produto atinge a data de validade, seja na prateleira da loja, no
depósito ou no armazém do Centro de Distribuição, e não pode mais ser
comercializado.
Mas se é a principal causa, não deveria ser esse o principal
tema de discussão em reuniões sobre perdas, e logo ser eliminado? Para quem não
conhece a rotina de uma loja, parece simples. É só olhar a data de validade dos
produtos na prateleira, certo? Vamos entender as causas desse problema e porque
não é tão fácil quanto parece:
Sortimento da Loja:
Para oferecer tudo que seus clientes precisam, um
supermercado comum (sem eletrodomésticos) chega a contar com 12 mil produtos
diferentes em estoque (que na logística e varejo, são os chamados SKUs). Um
hipermercado por sua vez pode chegar a 60 mil itens diferentes, e mesmo uma
mercearia ou conveniência de bairro supera o número de mil SKUs na área de
vendas. Em uma farmácia, há cerca de 5 mil produtos.
A gestão de tudo isso é complexa: conferir as datas de
validade de cada produto, todos os dias, é operacionalmente inviável. Supondo
que uma pessoa gaste um minuto por produto, em um supermercado seriam
necessários 25 funcionários só para olhar a validade. Aqui as coisas já começam
a parecer mais difíceis, não é mesmo?
Controle Sistêmico:
Antes de começarmos esse tópico, vale relembrar um conceito:
cada produto tem um código de barras diferente, que é sempre igual para aquele
produto, e não varia conforme o lote ou a validade.
Quando um produto chega no supermercado, vindo direto do
fornecedor ou do Centro de Distribuição, é feita uma conferência e registro em
sistema do código de barras e, em alguns casos, da data de validade. Nesse
momento, é possível que a loja saiba quantas unidades de cada produto foi
recebido, por data de validade.
O problema acontece em outro momento: na saída do produto da
loja, quando um cliente o leva para casa. Ao passar o produto no caixa/PDV, a
única informação registrada é o código de barras que sai do estoque no momento
da venda. Como então saber qual data de validade foi vendida, se essa
informação não é “bipável” como o código de barras? Anotar ou digitar uma por
uma no sistema, sendo otimista, duplicaria a fila nos caixas e geraria
insatisfação nos clientes. Novamente, operacionalmente é inviável.
Falta de Informação:
O problema que explicamos acima nos leva a outro, que também
dificulta a gestão das perdas por validade: a falta de relatórios consistentes
que previnam ou alertem o risco de vencimento de um produto. Existem gráficos e
relatórios que registram o volume de produtos descartados por validade vencida,
mas raros são os dados preventivos. Por exemplo, não é possível saber, de
maneira prática e consolidada, se alguém chegou a identificar um risco de
vencimento para aquele produto, quais produtos estão com a data curta na área
de vendas e no depósito da loja, e quais até mesmo já venceram e ainda estão
expostos.
Isso dificulta a tomada de decisão dos gestores de loja, que
não conseguem prever o tamanho do problema e, portanto, não conseguem efetuar
planos de ação para reduzir essa perda.
Excesso de Estoque:
Em alguns casos, por estratégias comerciais, previsão de
demanda incorreta, mudança no comportamento de consumo ou lote mínimo de compra
de um produto superior à demanda da loja, ocorre o excesso de estoque de um
produto. Ou seja, a quantidade existente na área de vendas e no depósito é
superior à venda média do produto, e a menos que sejam tomadas ações de oferta
ou exposição especial, esse excesso será convertido em vencimento.
Nesse caso, como já sabemos que o rastreamento de um produto prestes a vencer é complexo, também é difícil identificar de maneira prática que um produto está em risco de vencimento por excesso de estoque. Como o número de SKUs é muito grande, quando um produto chega na loja com data de validade de 4 meses, a princípio parece sob controle, ou no mínimo menos preocupante do que os produto que estão com 20 dias ou menos para vencer.
Negociação com Fornecedores:
Vamos a um exercício mental:
Pense na primeira marca que vem na sua cabeça para
a) refrigerante;
b) chocolate;
c) iogurte;
d) sabão em pó.
Essas marcas que você pensou são as chamadas líderes de mercado, que nunca
podem faltar na loja! Esses fornecedores têm maior poder comercial e em alguns
casos oferecem ótimas políticas de preço para a compra em grande quantidade,
que depois podem vir a vencer no varejo, ao invés do depósito da indústria.
Também são marcas que fazem lançamentos frequentes, que em alguns casos não
atingem o esperado em vendas.
Nesses dois casos, dependendo da negociação do varejista, o
fornecedor arca com uma parcela da perda por validade da loja, mas o produto
não deixa de ir para o lixo. E, como já sabemos, é difícil identificar esse
problema antecipadamente, ainda mais se o produto é novo e não tem histórico de
venda.
Agora ficou mais fácil entender por quê esse é um
problema tão complexo de se resolver, não é mesmo? Fique de olho nos nossos
próximos artigos, onde detalharemos esses problemas e as melhores práticas para
combater a Perda por Validade Vencida em supermercados, farmácias,
conveniências, perfumarias etc.
